quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Elipses e Alucinações

Grupos de primitivos humanos se locomovem com seus braços compridos e mãos grotescas, que ainda não servem para arpejar as cordas de um instrumento ou escrever poesia, tocando vez por outra o chão árido de uma paisagem quase lunar. Elas auxiliam o andar saltitado das pernas semi curvadas de um ser ainda não totalmente bípede, habitante de um mundo que se traduz na guerra entre alfas de pequenas trupes de nômades. O conflito é iminente entre os viventes in natura. Um deles se ergue mais que os outros e se arma com a primeira espada que se tem notícia. Não é mais que um osso femoral branco, mas a partir dali o poder bélico se instala como marca traiçoeira que “justifica” a desigualdade entre iguais. Embebido em sua ira tirânica ele esbraveja para o espaço, clamando seu direito de ser Deus. Em seguida lança o artefato que empunha com toda a força para o alto. O osso gira, gira, gira... Primeiro em grande velocidade para em seguida iniciar a rotação em slow até flutuar suavemente, completamente imerso no espaço sideral. A essa altura já não é mais uma simples parte de um cadáver arqueológico, mas uma nave espacial. Eis a sequência inicial de 2001: Uma Odisséia no Espaço.

Na película clássica, a história se inicia com uma elipse de tempo (segundo Doc Comparato a maior da história), algo que somente a partir da narrativa cinematográfica fica tão poético e tão esmagadoramente cruel, pois as cenas se superpõem em frente aos olhos e, ao final de alguns segundos, centenas de milhares de anos se passam e assim convencem mais do que as teorias da mecânica quântica, expostas por meio de equações matemáticas abstratas. Einstein x Eisenstein, um diálogo realizado no subtexto dessa maravilhosa obra de Kubrick (escrita por ele e por Arthur C. Clarke) e que provoca sensações fantásticas, alucinações típicas da mágica da sétima arte, mas que, no entanto, também produzem inquietações, sobretudo na mente dos que escrevem com imagens.

Com efeito, o tempo/espaço no cinema é relativo, é compactado ou expandido por força da combinação de signos sob determinada regência. Na série televisiva americana 24 Horas (produzida e estrelada por Kiefer Sutherland), a proposta, também diferenciada, é, ao inverso da introdução de 2001, perseguir o tempo real, cortando para situações que ocorrem simultaneamente em espaços diferentes (e aqui já se tem um bom exemplo da conjugação de espaços, onde entra a tese do jogo de planos do espaço cinemático) durante os sessenta minutos de duração de cada episódio (que na verdade são 45’). Em uma perspectiva transmediática, se poderia imaginar que as cenas completas de cada cenário, sem cortes e interrupções, pudessem ser vistas por completo, em separado das demais, como um “reality show da ficção” e exibidas dessa forma através de websites para aficcionados, como um Big Brother mais irreal do que o citado show. 

Na semiótica Peirceana, o objeto imediato está sempre no interior do objeto dinâmico, que por sua vez, torna-se objeto imediato de um objeto dinâmico maior e assim seguindo ininterruptamente em um esquema hierárquico multilateral organizado somente pelo ponto de vista de quem executa este ordenamento. O tempo/espaço no audiovisual é submetido à mesma lógica, como, por exemplo, o tempo dramático de um take (ação entre cortes), submetido ao tempo dramático de uma cena, que é submetida ao tempo dramático de uma sequência, que está contida no tempo dramático do filme, que, se fizer parte de uma série, está imerso no tempo dramático de uma temporada, que ainda pode tornar-se unidade do conjunto de temporadas, cada um destes elementos possuindo uma curva dramática própria, legislada pela única lei da dramaturgia segundo Comparato: que “...em dramaturgia não há lei”.

Assim, o tempo dramático Aristotélico, transcrito em sua teoria do argumento e que embasa o roteiro em três atos Hollywoodiano, pode ser subvertido, mantendo-se apenas a posição do clímax da história, única exceção à “lei” da dramaturgia expressa anteriormente. Pulp Fiction (escrito e dirigido por Quentin Tarantino) e Amores Perros (escrito por Guillermo Arriaga e dirigido por Alejandro González Iñárritu), misturam os plots e embaralham a ordem dos acontecimentos estimulando novas sinapses às mentes acostumadas à cronologia convencional da maior parte dos blockbusters estadunidenses. A viagem quase alucinógena desses filmes, em que não há mais a noção clara de cristalização do tempo, como observa Deleuse, mas uma pulverização pós-moderna, estressante, dos acontecimentos, lançaram nova luz ao desenvolvimento de narrativas audiovisuais, que se tornaram mais diversificadas, “brincando” com as possibilidades quase que infinitas que agora se desdobram na construção do drama.

Em outra linha de pensamento, partindo do conceito de “imagem-tempo” de Deleuze (discutido também em André Bazin e Roland Barthes), é sugerido que por meio da câmera se cria uma “consciência” estabelecida não pelo que seus movimentos e enquadramentos podem recolher, mas pelas “relações mentais e psicológicas nas quais é capaz de entrar”. Sob esse aspecto, o tempo do filme parece se misturar ao tempo de cada espectador através das sensações despertadas pela película, que torna-se portadora de momentos cristalizados na memória afetiva dos “observatores”, pois “o que está no filme já não existe mais”. A imersão, nesse caso, pode ser muito mais clara e evidente em um outro tipo de elipse temporal espacial que possui total aderência com o clássico “mecanismo de identificação do cinema”, cuja criação se costuma atribuir a D. W. Griffith e que foi sistematizada por Kulechov em seus escritos, como também se pode ler na obra “O Discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência”, de Ismail Xavier.

O tempo/espaço dramático nas telas é mensurado e percorrido de forma diferente do real, que é subvertido e arquivado, sendo por isso muitas vezes “angustiante” se chegar ao fim de uma exibição, como da escrita de uma história, quando se nota, de forma pragmática que a vida, enfim é o relógio. Mas, que bom que ainda acreditamos, como artistas das imagens e das palavras-imagens, que é possível continuar tentando, com nossas alucinações mexer nesses ponteiros para frente e para trás, para frente e para trás, para frente e para...

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Marrrrr

I.

No liso mar de uma lenta madrugada, vejo a ilha e o velho forte com aflição
Adivinhando que logo se assanharia, o azul brilhante a espumar na viração
Vira-se um dia qualquer mar de calmaria, em noite vil de revoltada ventania

E os ventos cortam, rugem, levam tudo que havia, se alguma coisa realmente houvera um dia
Rasgam-se velas, quebram-se mastros, perdem-se homens na água fria

Rompem-se cascos, travam-se lemes, choram mulheres em agonia
Baixo o semblante e quase sinto, o grave vaguear do mar, como as mãos de um gigante que se cansou de segurar

E ele joga o velho barco e este ginga a se esquivar, e o outro cospe suas entranhas e este engole a se engasgar

O sal na boca força a língua e mingua a força em busca d'água
A mágoa aflora e o bote gira e nula ira em Deus se enxagua

Em Deus se exuma, em Deus se exala, em Deus se assume, em Deus se abala, em Deus se despe, em Deus se fere, em Deus se xinga, em Deus se cala

E o calado então se acalma e volta a brisa a acarinhar, volta a Baía em pele lisa com os santos a merenguear
Com tudo em volta em harmonia, em vias de se confessar, o marinheiro apressa a guia e pede a Deus pra perdoar

II.

Imenso mar levanta sutilmente as pálpebras e vê com sonolência o crespo homem trapejado, em si perdido, de eu ferido e tez salgada já no fim da madrugada, o olhar no céu

Mira o nada, atrás de porto entre o ocaso e o amanhecer, por entre as nuvens, entrelinhas do que é Deus, febril e trêmulo, humano pêndulo, arrasta os dedos, medos, credos...

Foi-se a bandeira em noite alta e ao bote falta muito mais que as tuas cores. Falta mastro, falta vela, falta vento... Mas, vai-se lento já não mais pela baía, já não mais se arriscaria em nado livre o marinheiro, preso está pelas correntes, longe do mundo inteiro

Nesse deserto de águas mansas, cego da realidade, submerso em suas lembranças, afogado na esperança de em algum lugar parar, segue à deriva nas ondinas repartidas pela proa

Já o tempo não castiga, salvo o tempo que não para, pois o céu, lindo e azulante, ainda esconde o temporal , pois no brilho da maré espreita o fogo infernal, pois na sombra do costado dançam as almas do umbral

Mal se segura, triste figura, doce carranca do São Francisco, risca uma estrela entre seus pés, cobre com a cava, amedrontado, qual fosse a bela da tarde, foge do sonho, vive o nada, o mundo abaixo do nariz, não é feliz... Ou não está...

sábado, 5 de maio de 2012

Uma nova "Nova Era das Desigualdades"

Quando Jean Paul Fitoussi e Pierre Rosanvallon escreveram a "Nova Era das Desigualdades," ainda em 1997, a França começa a constatar na própria carne o resultado da exploração secular desregrada das suas colônias, sobretudo africanas, que no recente "mundo livre" se tornaram parte de um largo grupo "sul hemisférico" denominado nos anos 60 como nações da periferia e há algumas décadas, apelidados de forma "carinhosa" pelo FMI como "países em desenvolvimento".

O que começou a acontecer na França na década de 90 "botando água no champanhe" de boa parte dos seus habitantes foi o que aconteceu em toda a Europa, nos países de centro, algum tempo depois da queda do muro de Berlim, como um dos efeitos da globalização, quando as péssimas condições sociais que bem conhecemos no Brasil e que existem pelo terceiro mundo a fora, levaram milhares de árabes, argelinos, turcos, latino-americanos diversos, africanos meridionais e setentrionais, indianos, além dos pobres europeus orientais que viviam atrás da "cortina de ferro", a "invadirem" os oásis de prosperidade econômica do velho continente e da América, atrás do sonho de ter uma vida minimamente decente.

Certamente foi em Paris a revolta burguesa, que amparada pelo "liberté, egalité, fraternité" construiu as bases filosóficas do moderno capitalismo, depois aprimorado em terras britânicas por Adam Smith. Mas também vem da cidade luz, de iluminada e iluminista, a revolta sessentista dos estudantes e a possibilidade de um país socialista onde as idéias e as pessoas circulavam em liberdade. Foi lá que Marx conheceu Proudhon e que 70 anos depois muitos comunistas, como meu tio José Sebastião Rios de Moura, conseguiram até anistia política enquanto a ditadura quebrava o pau por aqui.

No entanto, o leitor há de convir que é difícil se manter um oásis com tanta gente vivendo em volta no deserto do individualismo, da ignorância e da ambição material desmedida (outro efeito nefasto do capital pós-Berlim). Afinal de contas, todos querem água, frutas, descanso, respeito, amor, felicidade... Atrás disso atravessam fronteiras com a roupa do corpo e se apoiando em sonhos, o que não agrada aos legítimos "filhos da pátria" que, na atualidade, em uma escala que vem evoluindo desde essa retomada do liberalismo ao nível mundial, infelizmente, são soldados em um processo encampado de igual retomada de idéias de ultra direita, mesmo nazi-facistas, e não apenas na casa de Rousseau, mas também na de Gramsci e Malatesta, de Pi y Margall e do próprio Marx.

Dito isto, devo expressar que encontrar o socialismo na minha opinião é no mundo doente em que vivemos hoje mais do que uma opção política, a única forma de sobrevivência do ser humano nesse planeta, pois como aprendemos no ensino fundamental, ele é um ser social e por isso não vive sozinho... Melhor dizendo, NÓS não vivemos sozinhos.

domingo, 11 de março de 2012

Salvador não é uma mentira!

Nasci e cresci em uma cidade até então vista como uma espécie de paraíso do lazer, das festas de largo, do "no stress", do ócio criativo e produtivo que gestou e (ou) depois amamentou gente do calibre de Caymmi, de Amado, de Veloso e de Gil, somente para citar os sobrenomes clássicos e inconfundíveis, mas também de Rocha (o do cinema), de Gilberto (o da bossa) , de Barbosa (o do fórum), de Teixeira (o da educação), de Bimba e Pastinha (pra quem não conhece, os apelidos da capoeira), de Bastos, Cravo, Silva, Paraíso, Mendonça Filho, Moreno (para citar os artistas), de Macêdo (o do Trio Elétrico e da Guitarra Baiana), de Ribeiro (o de Itaparica) entre outros, muitos, vanguardistas, criativos, inesquecíveis baianos, de sangue ou de espírito, tanto faz. Todos estandartes de uma utopia em forma de lugar.

Lembro-me, por exemplo, de um momento em que se alardeou um pedaço da cidade como sendo o "principado de Itapuã", onde sorridentes soberanos criavam belos mundos em meio aos areais brancos que cada vez menos existem transformados em ingrediente de massa de cimento com o consentimento dos que deveriam ser os seus guardiães. Nessa mesma época, que hoje parece incrivelmente distante, minha mãe ainda dizia quando queria fazer compras na Avenida Sete de Setembro, que "iria para a cidade", como se morássemos fora dela.

Lembro-me bem da malemolência pesada do andar das lavadeiras em Amaralina, com suas enormes trouxas de roupa na cabeça, parando para conversar enquanto nada as dizia que o fator tempo seria igual ou proporcional ao fator dinheiro. Não havia, pois, fordismo (nem periférico) e muito menos Toyotismo na Salvador dessa época. O que havia mesmo era um longo, vasto e contemplativo horizonte que hoje cede espaço a uma tentativa de muito mal gosto de um prefeito e seu bando em recriar a primeira capital do Brasil como uma espécie de São Paulo à beira-mar.

Hoje, muito diferente do bucolismo de outrora almejado por não baianos de todo o Brasil, lemos com irada tristeza Dimenstein escrever que a "Bahia é uma mentira". E com toda certeza ele Expressou isso em muito apoiando-se na propaganda (enganosa?) governista do turismo que nos chama de "terra da felicidade", mas talvez não na igualmente inacreditável campanha "municipista": "Salvador: cidade do trabalho...".

É... Companheiros soterobaianos, o fardo é pesado e o sapo a ser engolido é dos mais gordos. Até Caetano, embora pesaroso, concordou com o autor do citado artigo, afinal nada mais contrastante com a caótica e insustentável situação dessa cidade e desse estado do que os slogans publicitoscos veiculados nas mídias. Eles decerto querem imprimir conceitos positivos, mas esbarram seus narizes de Pinóquio nos engarrafamentos intermináveis, na poluição sonora e ambiental, na falta de segurança, no desrespeito ao que é público enfim...

Porém, folgo em dizer que, mesmo com os cartéis da construção civil e do transporte de péssima qualidade prontos para a guerra com facas nos dentes e a mirar legados fantasiosos, porém lucrativos, de uma Copa do Mundo indesejada e incompreendida pela maioria das pessoas. Mesmo com as atrocidades diárias cometidas pelo alcaide e pelos edis desse município, que somadas parecem mais que justificar o pensamento "mentiroso" do senhor "Gilberto D.". Apesar disso tudo, devo expressar que eu, diferente do carioca de Santo Amaro, filho de Canô e irmão de Bethânia, devo ser veemente em discordar da citada "culhuda baiana" divulgada a torto pela Internet e outros meios de comunicação. Faço isso, mas não porque fui tomado de um surto xenofóbico a la Lula e assim impedido por fulminante cegueira de ver as coisas como realmente são, mas justamente porque consigo ainda enxergar - o que talvez não seja possível ao forasteiro Dimenstein - além do verniz aplicado de forma cretina e interesseira e travestido de progresso que nossos chefes eleitos manufaturaram. Dessa maneira, quero crer que, talvez guiado por Jorge Amado ou pelo próprio Oxalá, eu ainda consiga ver o "mistério que escorre como um óleo" pelos becos e ruas de Salvador e que ainda torna esse lugar um espaço místico e de beleza única.

Com efeito, sei que Pedro Archanjo existe, assim como existem hordas de Capitães da Areia, ainda que seja bem provável hoje estarem todos viciados em Crack, mas eu consigo encontrar (e certamente você também) gente como Guma, Gabriela, Dora, Castro Alves, Manoel Quirino, Cuiúba e também Gregório de Matos por aí. Desse último, na verdade, se encontra aos montes nos últimos tempos! Falando o que pensa, ironizando os podres poderes e a burrice arrogante da burguesia baiana.

Então, afinal, Salvador não é uma mentira e muito menos a Bahia. Só que isso não significa que ainda não possam se tornar, haja vista os esforços nefastos e incessantes da ganância desmedida e da corrupção, além é claro da incompetência crônica dos donos das canetas na atualidade (será que estes crêem nas suas próprias presepadas?).

Para que isso não aconteça, o que se precisa fazer em minha humilde opinião é na verdade "se mexer", ou "se mobilizar", que creio ser um termo mais da moda. Manifestações e movimentos, há hoje alguns exemplos espalhados pela cidade, mas são ainda poucos perto da quantidade de gente insatisfeita que vejo e principalmente ouço, mesmo não sendo este interlocutor o bispo ou o caboclo do Campo Grande.

A única ressalva a se fazer é a de que há sempre de se tomar cuidado, pois, muito embora precisemos, sim, redirecionar os rumos deste estado e de sua capital, muito embora padeçamos de sede e de fome de voltar a figurar "nas pontas", de inovar no melhor sentido da palavra, de revolucionar, muito embora tenhamos que respeitar e reverenciar o nosso passado. Mesmo com tudo isso, não há porque querer retroceder à... ou permanecer na... época de uma cidade provinciana, uma vez que isso também seria necessariamente uma mentira.

Salvador e a Bahia mudaram, tenho certeza que não em essência, mas se tornaram maiores e mais ambiciosas... Mais pós-modernas. Assim, devemos certamente reduzir a marcha para podermos pensar bem, refletirmos com calma, como sempre foi característico dessa terra, e por fim, sem pressa, mas também sem preguiça, recuperarmos nosso casario despedaçado, nossa autoestima ferida e começarmos a construir o nosso futuro, ainda que tardiamente.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Fala Menino!


Esse é um curta roteirizado e co-dirigido por mim a partir da turma de personagens criados por Luis Augusto. Também elaborei os conceitos e o projeto da série animada que possivelmente será realizada pela RX30.

Projeto secreto



Estes desenhos fazem parte de um projeto secreto nosso, ou seja, nenhuma informação será dada além dessa, mas fique livre para usar a imaginação!

A Mulé, o Matadô, o Armário e o Trem



Um curta que roteirizei e produzi a abertura, mas ainda não vi o resultado final. Também é um trabalho conjunto da Origem com a RX30.